<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Cultura Embriagada]]></title><description><![CDATA[JORNAL DE IMPRESSÃO OCASIONAL]]></description><link>https://culturaembriagada.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!GDNR!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fculturaembriagada.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>Cultura Embriagada</title><link>https://culturaembriagada.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 14 Aug 2026 09:40:18 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://culturaembriagada.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Cultura Embriagada]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[culturaembriagada@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[culturaembriagada@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[CULTURA EMBRIAGADA]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[CULTURA EMBRIAGADA]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[culturaembriagada@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[culturaembriagada@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[CULTURA EMBRIAGADA]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A fruta, a treta e a truta]]></title><description><![CDATA[Texto Pedro Batista]]></description><link>https://culturaembriagada.substack.com/p/a-fruta-a-treta-e-a-truta</link><guid isPermaLink="false">https://culturaembriagada.substack.com/p/a-fruta-a-treta-e-a-truta</guid><dc:creator><![CDATA[CULTURA EMBRIAGADA]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Aug 2026 21:52:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a38g!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F54ea74be-fcb2-4309-b870-6f2a7c1d1f74_7441x1418.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Trata-se de uma vizinhan&#231;a grafem&#225;tica, onde, na gruta das letras, vivem todas pr&#243;ximas. Mas &#233; apenas isso que t&#234;m em comum, s&#227;o pr&#243;ximas apenas porque partilham meia d&#250;zia de letras.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A fruta, por exemplo, fica bem com a truta. H&#225; uma rela&#231;&#227;o entre elas. Mais do que vizinhas, s&#227;o amigas e cozinham em conjunto. Mas seria uma treta se a treta em si estivesse perto delas. Ningu&#233;m quer uma truta da treta ou uma fruta da treta. Embora haja muitas tretas da &#233;poca, tretas biol&#243;gicas, tretas de rio e de mar, n&#227;o se quer treta &#224; mesa. O aceit&#225;vel &#233; mesmo s&#243; em conversas. A treta e a truta tamb&#233;m s&#227;o vizinhas das irm&#227;s tortas, bastam duas trocas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>H&#225; uma torta que est&#225; mais perto da treta, uma teimosa, que ningu&#233;m quer. J&#225; a outra torta, que est&#225; perto da tarte, d&#225;-se muito bem depois de uma truta e melhor se for feita com fruta.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A truta fica bem frita. J&#225; a fruta depende da fruta. A banana &#233; uma boa fruta frita, mas j&#225; a ameixa frita &#233; uma piada metida &#224; bruta.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://culturaembriagada.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar Cultura Embriagada&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://culturaembriagada.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Partilhar Cultura Embriagada</span></a></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://culturaembriagada.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Cultura Embriagada! 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Eu estou farto de toda a conversa da portugalidade, meus amigos, e posso participar em todos os festejos, tradi&#231;&#245;es e pr&#225;ticos, mas f&#225;-lo-ei com not&#225;vel desagrado, ora snobista, ora com alguma raz&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando Ant&#243;nio Lobo Antunes faleceu h&#225; cerca de cinco meses, veio-me parar &#224;s m&#227;os por obra do meu pai (n&#227;o fosse a morte do artista um grande trunfo comercial) o livro As Naus. L&#225; embarquei nesta viagem de ler o meu primeiro Lobo Antunes, um exerc&#237;cio duro por uma escrita que quebra as barreiras da linearidade do tempo, do espa&#231;o, do narrador, o que &#233; talvez a sua maior prova de for&#231;a mas tamb&#233;m o maior obst&#225;culo &#224; sua leitura (dois meses para ler duzentas p&#225;ginas - culpo o autor e a sua escrita porque jamais assumirei a pregui&#231;a como defeito meu).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As Naus, relatam o retorno dos her&#243;is dos Descobrimentos a Portugal, encontrando uma Lisboa espiritualmente e literalmente decadente, ao mesmo tempo que nos apercebemos que estes s&#227;o homens decadentes, cuja hist&#243;ria como retornados &#233; o reflexo perfeito de um imp&#233;rio decadente. Os her&#243;is, Cam&#245;es, &#193;lvares Cabral, Vasco da Gama, Diogo C&#227;o, entre outros, n&#227;o s&#227;o recebidos com salvas nem pompa e circunst&#226;ncia, pois n&#227;o h&#225; nada a celebrar. O passado &#233; m&#237;stico e difuso, as terras coloniais e as personagens que nelas vivem s&#227;o meros fragmentos de mem&#243;ria n&#227;o glorificada, mas nunca esquecida. Os retornados s&#227;o velhos, fracos, moralmente e fisicamente corrompidos, perdidos e nunca conseguimos entrar realmente na cabe&#231;a deles. Deambulamos com eles pelas ruas estragadas de uma cidade sem qualquer esplendor e mergulhamos nos seus pensamentos que nunca s&#227;o seus, e nas suas vidas que n&#227;o lhes pertencem. A mensagem, a existir, &#233; simples (independentemente do qu&#227;o complicado o livro possa ser) - o imp&#233;rio caiu, e com ele caiu tudo &#224; nossa volta. O imp&#233;rio, independentemente de ser real, fict&#237;cio, grandioso, justo, palp&#225;vel ou imagin&#225;rio, cai e com ele cai aquilo a que podemos chamar de um esp&#237;rito nacional. O livro, deste modo, n&#227;o conta propriamente uma hist&#243;ria com in&#237;cio, meio e fim, nem relata personagens com um arco ou prop&#243;sito. Mas entra em n&#243;s como uma lan&#231;a que n&#227;o sai, construindo um mar de afli&#231;&#245;es inexplic&#225;veis sobre n&#243;s e este nosso imp&#233;rio irreal &#224; volta do qual constru&#237;mos uma coisa parecida com identidade nacional.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A discuss&#227;o &#224; volta da ess&#234;ncia do ser portugu&#234;s atingiu propor&#231;&#245;es espalhafatosas, passando do campo liter&#225;rio e discursivo para a hiper-comercializa&#231;&#227;o e cultura de massas da era da internet. O t&#243;pico pode ser resumido a uma t-shirt estampada com a palavra &#8220;saudade&#8221; (essa tal palavra chave) a ser vendida numa loja de conveni&#234;ncia na baixa de Lisboa. Portugal n&#227;o &#233; moda, &#233; marca e o verdadeiro marketing &#233; aquele que nem marketing se faz parecer.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Queixar-me da superficialidade destas pr&#225;ticas e tend&#234;ncias, ou melhor, deste paradigma, apesar de um exerc&#237;cio pretensioso de algum interesse de pouco serve se n&#227;o se redirecionar a discuss&#227;o para um verdadeiro debate sobre o que &#233; ser portugu&#234;s, discuss&#227;o urgente nos tempos em que identidade nacional &#233; instrumentalizada em tantas dimens&#245;es. Mais que nunca tendo a crer que o portugu&#234;s vive no presente com o eterno remoer do passado e a desesperada &#226;nsia do futuro, o retorno, o destino. Em As Naus, o imagin&#225;rio coletivo identit&#225;rio de Portugal, repleto de mitos, lendas, gl&#243;rias, promessas &#233; desconstru&#237;do no paralelo entre o feito (a grandeza, o passado, a descoberta) e o retorno (a queda, o presente, a derrota). Nesta anti-epopeia, o destino do her&#243;i n&#227;o &#233; tornar-se vil&#227;o, mas sim tornar-se insignificante. A decad&#234;ncia das personagens, &#233; a decad&#234;ncia do reino, cujo fado &#233; viver eternamente na pequenez de quem tinha o mundo prometido a si. Ser&#225; o nosso destino como povo viver excessivamente ligado a um passado fantasiado repleto de mitos, esperando eternamente um retorno vindo de um nevoeiro?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se faz falta uma discuss&#227;o s&#233;ria sobre a identidade nacional, o que n&#227;o faltam s&#227;o refer&#234;ncias hist&#243;ricas.</span><em><span> O Labirinto da Saudade</span></em><span>, ensaio do maior fil&#243;sofo nacional Eduardo Louren&#231;o, j&#225; aponta para este estado liminal em que o inconsciente coletivo portugu&#234;s vive, num c&#237;rculo vicioso entre a gl&#243;ria do passado e os mitos do futuro. O povo portugu&#234;s, sentado no div&#227;, &#233; sujeito a uma psican&#225;lise dos seus traumas, sonhos e condi&#231;&#245;es, onde a saudade &#233; muito mais do que um sentimento po&#233;tico mas sim um mecanismo de viver com as ang&#250;stias do passado e as frustra&#231;&#245;es de pequenez do presente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Continuamos a bater com a cabe&#231;a &#224; procura de respostas na imagem fict&#237;cia do passado, e deixamos que ela pinte o quadro do nosso presente. Os s&#237;mbolos n&#227;o s&#227;o s&#243; s&#237;mbolos, a cruz &#233; muito mais do que dois ret&#226;ngulos perpendiculares a cruzarem-se, as naus s&#227;o muito mais que barcos, o mar &#233; muito mais do que um corpo de &#225;gua, a independ&#234;ncia das terras do ultramar &#233; muito mais do que descoloniza&#231;&#227;o. A manh&#227; de nevoeiro &#233; muito mais que esperan&#231;a, o fado &#233; muito mais do que m&#250;sica, e a ang&#250;stia e o ressentimento s&#227;o muito mais que meras emo&#231;&#245;es. Mas o que n&#227;o falta s&#227;o hist&#243;rias, contadas de mil maneiras diferentes, e mil meios diferentes, que prop&#245;em olharmos com cautela e sinceridade para o Portugal que reproduzimos diariamente. Mas &#233; preciso querer olhar. Ou ent&#227;o, continuemos a mirar as caravelas a retornar e achar que isto sim &#233; que &#233; ser portugu&#234;s.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://culturaembriagada.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar Cultura Embriagada&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://culturaembriagada.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Partilhar Cultura Embriagada</span></a></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://culturaembriagada.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Cultura Embriagada! 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Estava eu, o camarada Marques e o camarada Cadeado, sentaditos na fila lateral do teatro Tivoli, &#224; espera do come&#231;o da pe&#231;a &#8220;Sr. Engenheiro - Alegadamente Um Musical&#8221;. Convers&#225;vamos, exaustos, mas felizes, na ressaca de um dos melhores dias das nossas vidas - a apresenta&#231;&#227;o da 2&#170; edi&#231;&#227;o do Cultura Embriagada. Naturalmente, sendo n&#243;s autores de um jornal de s&#225;tira pol&#237;tica, ou &#8220;O&#8221; jornal de s&#225;tira pol&#237;tica, como dizem por a&#237;, e curiosos com o que estar&#237;amos prestes a ver, o tema central do nosso cavaco, era, obviamente, Jos&#233; S&#243;crates.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Os meus camaradas, mais por dentro da coisa, discutiam entre si as nuances do caso, lembravam as qualidades de modernizador do &#8220;Sr. Engenheiro&#8221;, mas n&#227;o o faziam para o defender, ambos concordavam que ele era um canalha. Eu, por outro lado, escutava-os, n&#227;o sabia tanto quanto eles e n&#227;o me apetecia fingir que sabia. Escutava-os, como quem escuta os pardais no jardim e olha para o nada pensando na vida. No entanto, o camarada Marques tinha algo a dizer, algo que viria a perturbar a minha tranquilidade, uma acusa&#231;&#227;o - &#8220;Camarada Carolino, o camarada n&#227;o partilha a sua opini&#227;o muitas vezes, n&#227;o sabemos o que defende, os seus ideais pol&#237;ticos, o que pensa disto tudo&#8221;. Fiquei incr&#233;dulo. Parecia que os pardais que outrora cantavam agora se dirigiam a mim, com os seus bicos afiados para me bicar. O meu camarada, colega de jornal, por quem tenho grande estima e respeito, acusava-me desta forma! N&#227;o soube responder.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Entretanto, a pe&#231;a come&#231;ou, o que foi suficiente para os meus camaradas esquecerem o assunto. Mas eu l&#225; continuei, indignado e at&#233; um pouco ofendido, no final de contas, eu pronuncio-me, apenas n&#227;o o fiz desta vez porque n&#227;o queria. Mas eu digo o que penso, eu, Jorge Carolino, vivo e defendo os meus ideais intensamente! Quando eles falam de pol&#237;tica, eu estou l&#225;! De p&#233; firme, de punho forte, com ra&#231;a, com a faca nos dentes, pronto a argumen&#8230;ahh quem &#233; que eu quero enganar. A realidade &#233; que o camarada Marques tem raz&#227;o, por vezes apago-me, ou porque acho que tudo o que &#233; relevante j&#225; foi dito ou porque n&#227;o sei bem o que dizer. Fico preso, entre duas ideias completamente contr&#225;rias, tento entender a causa e a consequ&#234;ncia de cada uma e permane&#231;o nesse longo tenteio, incapaz de o concluir. Fico preso, mas de mente-aberta, n&#227;o me fecho, n&#227;o fico &#8220;quadrado&#8221;, pare&#231;o um fluido que se dispersa tanto para um lado como para o outro. E quando eles falam da pol&#237;tica, da atualidade, l&#225; fico, entornado, espalhado naquela exposi&#231;&#227;o de ideias e opini&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o acho que seja defeito. Dizem por a&#237; que &#233; importante ser capaz de ver as duas faces da mesma moeda, o problema &#233; que n&#227;o s&#243; vejo, como inspeciono, &#8220;tim-tim por tim-tim&#8221;, e talvez morro antes de escolher cara ou coroa. &#8220;Talvez&#8221;. Aqui, reside ainda uma esperan&#231;a de que um dia seja diferente, que a an&#225;lise continue mas que a incerteza acabe. Creio que a vida ajude, &#224; medida que vamos envelhecendo, mais certos ficamos de quem somos. Portanto, veremos. Talvez isto um dia passe. Talvez me transforme num radical, cheio de convic&#231;&#245;es e vontade. Talvez at&#233; serei pol&#237;tico. Talvez.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://culturaembriagada.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar Cultura Embriagada&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://culturaembriagada.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Partilhar Cultura Embriagada</span></a></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://culturaembriagada.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Cultura Embriagada! 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A cidade tresandava a maresia industrial e peixe frito, mas vibrava intensamente com pores-do-sol tardios e noites afora pelas bodegas das ruas estreitas, carregadas de gente. Fixei-me num hostel, o &#250;ltimo antes de regressar &#224; p&#225;tria, confort&#225;vel mas modesto, e frequentado por viajantes solit&#225;rios como eu. Foi na segunda noite, j&#225; com uma garrafa de um branco fresco barato em cima, que conheci um jovem franc&#234;s, de olhos azuis, magrinho, com cabelo em palha que se espetava para cima curtamente, mas ca&#237;a por tr&#225;s numa longa tran&#231;a que fazia lembrar um viking hollywoodesco. Em conversas infind&#225;veis e trocas de hist&#243;rias rotineiras, falou-me que tinha estado num famoso festival de m&#250;sica na vila de Paredes de Coura no Minho umas semanas antes, e partilhou comigo um relato que mais parecia um conto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A primeira vez que ouvi falar do Homem-Torrada pensei que era uma anedota parva. Algo rid&#237;culo, uma par&#243;dia de banda desenhada ou de um filme da Marvel, sem qualquer est&#243;ria ou intimida&#231;&#227;o. O franc&#234;s olhou-me muito seriamente, confrontando a minha rea&#231;&#227;o despreocupada e irris&#243;ria quase como um sinal de desrespeito. Entendi a dica e endireitei-me no banco (que mais era umas almofadas entre duas paletes de madeira amontoadas), a brisa corria leve e assertiva no terra&#231;o do hostel. O franc&#234;s falou-me num tom soturno, como quem relatava um mito folcl&#243;rico.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>O Homem-Torrada, dizia-se, era alt&#237;ssimo e robusto como um velho arm&#225;rio que resiste a gera&#231;&#245;es de humanos e t&#233;rmitas. Ningu&#233;m sabia ao certo quem ele era, qual a sua cara, mas diziam que andava entroncado e desajeitado, de modo t&#237;mido como quem n&#227;o conhece o pr&#243;prio corpo. N&#227;o olhava as pessoas nos olhos, e quando tinha de falar, trope&#231;ava nas palavras, o tom ecoava para dentro, a conversa era limitada e constrangedora. Diziam-no um simpl&#243;rio, disse-me o franc&#234;s desavergonhado mas de cabisbaixo como se algu&#233;m estivesse a ouvir. Ningu&#233;m sabia quem era o seu acampamento, podia aparecer ora com uns mo&#231;os ingleses, ora com um grupo de gra&#250;dos de Coimbra rec&#233;m-trajados. Quem sabe, talvez aparecesse muitas vezes sozinho.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Ora fosse quem fosse, de dia era inofensivo, n&#227;o magoava uma mosca, poderia at&#233; ser goz&#225;vel, para os bullies mais ousados. Mas ca&#237;a a noite, ap&#243;s os concertos e os associados excessos do hedonismo festivaleiro, e instalava-se o medo.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>O franc&#234;s fez uma pausa. Engoliu em seco, deu um gole na Estrella, e continuou.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Ningu&#233;m sabia ao certo como ele chegava &#224;quele estado, quais as suas subst&#226;ncias de elei&#231;&#227;o. Mas na calada da noite, na hora da retra&#231;a, todos temiam o Homem Torrada. Completamente sozinho, vagueava silenciosamente o acampamento, com um andar pesado mas abafado, como um sismo de curta dura&#231;&#227;o. Andava de tenda em tenda, a bater &#8220;&#224; porta&#8221;, em busca de manteiga para as suas torradas. Numa gula tenebrosa e embriagada, tudo o que ele desejava dos acampamentos era simplesmente um peda&#231;o de manteiga, para poder comer as suas torradas. Primeiro perguntava calmamente, num tom grave e direto. &#192; segunda vez -</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>n&#227;o havia segunda vez. o Homem Torrada n&#227;o aceitava o n&#227;o como resposta. Num &#237;mpeto de f&#250;ria cega e primal, o Homem Torrada arrastava os bra&#231;os como um boneco insufl&#225;vel ao vento, deitando tendas abaixo, destruindo estacas, varetas e rasgando tecidos, mordia, arrancava, berrava, batia, um homem louco, ou melhor uma besta incontrol&#225;vel que n&#227;o pertence ao mundo dos mortais. Ap&#243;s o epis&#243;dio de aniquila&#231;&#227;o, seguia para o pr&#243;ximo acampamento, a passo lento e sombrio, arrastando o enorme corpo. Os que lhe davam manteiga poderiam sair impunes, mas o rasto de destrui&#231;&#227;o lan&#231;ado era ineg&#225;vel. Os campers viviam num estado de medo.</span></em><span> O franc&#234;s falava com algum peso pessoal - um amigo do primo teria visto com os pr&#243;prios olhos o acampamento ao lado a ser destru&#237;do. </span><em><span>Mas nunca havia provas, nem verdadeiras testemunhas. O Homem-Torrada ia pela calada da noite, e seguia taciturnamente durante o dia.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Ce n&#8217;est pas un homme. Ce n&#8217;est m&#234;me pas un animal. C&#8217;est autre chose&#8221;. O franc&#234;s tremia de medo, deixou cair o ingl&#234;s e a conversa foi morrendo lentamente, num constrangimento previs&#237;vel. Eventualmente foi-se deitar e nunca mais o vi.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mas ficou o Homem-Torrada. Este ser, algures entre uma lenda ib&#233;rica pag&#227; pr&#233;-crist&#227; e um mito urbano da internet, perdurou em mim numa curiosidade bestial. Tinha de saber mais.</span></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://culturaembriagada.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar Cultura Embriagada&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://culturaembriagada.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Partilhar Cultura Embriagada</span></a></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://culturaembriagada.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Cultura Embriagada! 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